Uma indústria pode passar anos desenvolvendo um equipamento, investindo em engenharia, tecnologia e assistência técnica. Quando chega a hora de anunciar, utiliza inteligência artificial para criar uma campanha com imagens impressionantes. Enquanto isso, uma empresa que não fez o mesmo investimento consegue apresentar uma publicidade visualmente tão atraente quanto a sua.
Basta observar algumas publicações que circulam nas redes sociais. Tratores em lavouras perfeitamente iluminadas, animais com aparências desejadas, fazendas que parecem cenário de novela. Retire os logotipos e tente identificar as empresas por trás dessas imagens.
A inteligência artificial mudou a maneira como trabalhamos. Hoje é possível pesquisar mercados, analisar dados, preparar planejamentos, desenvolver campanhas e executar atividades que antes consumiam horas de trabalho. É um avanço extraordinário, principalmente para empresas que precisam produzir mais com equipes enxutas.
O problema aparece quando a facilidade de executar começa a substituir a forma de pensar. A empresa recebe um planejamento pronto, aprova recomendações semelhantes às do concorrente e acaba perdendo sua identidade na tentativa de acompanhar as novidades.
Uma pesquisa publicada na revista científica Science Advances, em 2024, encontrou um resultado interessante. Num experimento com 293 participantes, histórias desenvolvidas com auxílio de IA receberam avaliações melhores em criatividade, mas também ficaram mais semelhantes entre si. Embora o estudo tenha analisado histórias curtas, o resultado merece atenção de quem trabalha com marcas.
Na pecuária, existe uma preocupação ainda maior com a fidelidade das imagens. Fotografias e vídeos ajudam o comprador a avaliar a conformação, os aprumos e as características raciais dos animais. Uma edição com IA pode modificar justamente os atributos que interessam nessa avaliação e apresentar um animal diferente daquele que está sendo anunciado.
A tecnologia oferece possibilidades enormes. Aproveitá-las exige conhecer o produto, o comprador e os motivos pelos quais uma marca merece ser escolhida.
O que seus concorrentes ainda não conseguem copiar?
Pense numa empresa de nutrição animal que pretende aumentar suas vendas.
Em poucos minutos, a IA consegue preparar campanhas sobre produtividade, desempenho e tecnologia, criar imagens e organizar um calendário completo de publicações. Seu concorrente provavelmente conseguiria resultados semelhantes.
Agora considere o conhecimento acumulado dentro dessa empresa. Os vendedores sabem quais dúvidas aparecem durante as negociações. A equipe técnica conhece as condições de utilização dos produtos. O histórico comercial permite analisar quais clientes continuam comprando e quais procuram outras alternativas.
Suponha que uma das principais dificuldades na venda de determinado suplemento seja a falta de clareza sobre seu custo diário por cabeça. Uma campanha que apresente esse cálculo, com informações técnicas confiáveis, oferece ao pecuarista um argumento que pode ajudá-lo na decisão de compra.
Talvez essa informação nunca tenha aparecido nas campanhas da empresa, embora seus vendedores expliquem o assunto diariamente aos clientes.
Uma pesquisa publicada em julho de 2026 no Journal of the Academy of Marketing Science analisou 280 eventos publicitários de marcas no Super Bowl, ao longo de dez anos. Os pesquisadores encontraram resultados favoráveis em indicadores de reconhecimento e avaliação da marca quando os anúncios comunicavam diferenças claras entre os concorrentes.
O estudo foi realizado no mercado norte-americano, mas reforça a importância de apresentar argumentos que ajudem o comprador a distinguir uma empresa das demais.
É justamente nesse trabalho que a inteligência artificial pode ser bastante útil. Com dados próprios e informações confiáveis, ela consegue organizar objeções comerciais, identificar padrões de comportamento e ajudar a desenvolver campanhas com argumentos mais específicos.
Parte desse conhecimento está nas conversas com os clientes, nos relatórios técnicos e nas experiências da equipe comercial. Informações que dificilmente apareceriam numa pesquisa genérica na internet.
Seu concorrente pode contratar as mesmas ferramentas de IA. Isso não lhe dá acesso automático ao conhecimento que sua empresa acumulou durante anos atendendo seus clientes.
Sua equipe está produzindo mais ou vendendo melhor?
Uma empresa que publicava doze vezes por mês agora consegue produzir quarenta conteúdos com a mesma equipe. O relatório mostra um ganho expressivo de produtividade, mas ainda precisamos olhar os resultados comerciais.
Os leads ficaram mais qualificados? Aumentaram os pedidos de orçamento? Melhorou a taxa de conversão? Os vendedores perceberam alguma diferença na qualidade dos contatos recebidos?
Esses indicadores ajudam a entender se a maior capacidade de produção está contribuindo para as vendas.
Um experimento realizado com 758 profissionais da Boston Consulting Group, em colaboração com pesquisadores ligados a Harvard, demonstrou ganhos importantes com o uso da IA. Nas tarefas adequadas às capacidades da tecnologia, os participantes trabalharam 25,1% mais rapidamente e concluíram 12,2% mais atividades.
Entretanto, numa tarefa gerencial complexa que ultrapassava essas capacidades, os participantes que utilizaram IA tiveram uma probabilidade 19% menor de chegar à solução correta.
O estudo, publicado na Organization Science em 2026, ajuda a entender por que a mesma tecnologia pode melhorar o desempenho em determinadas atividades e prejudicá-lo em outras.
No marketing, isso importa principalmente quando a IA começa a participar de decisões sobre posicionamento, segmentação de clientes e investimentos em publicidade. Uma análise aparentemente bem fundamentada pode apresentar conclusões equivocadas quando parte de informações incompletas.
A velocidade impressiona, mas o resultado continua precisando ser avaliado.
Quem conhece o negócio aproveita melhor a tecnologia
Há muita gente preocupada em aprender a escrever prompts. É útil, evidentemente. Saber orientar uma ferramenta melhora as respostas e facilita o trabalho.
Mas conhecer o mercado faz uma diferença enorme na qualidade das perguntas e na interpretação das respostas.
Na pecuária, por exemplo, anunciar um reprodutor TOP 0,1% exige compreender o índice genético utilizado, as características avaliadas e a população de referência. Uma ferramenta pode apresentar corretamente a classificação e, ainda assim, produzir uma interpretação comercial equivocada.
Quem trabalha com genética consegue perceber esse problema. O mesmo vale para um profissional que conhece as particularidades de um equipamento agrícola, as recomendações de utilização de um fertilizante ou as condições de consumo de um suplemento.
Esse conhecimento também permite utilizar a IA para atividades muito mais interessantes do que criar publicações. Analisar campanhas anteriores, estudar o comportamento dos compradores, identificar oportunidades comerciais e comparar diferentes estratégias são possibilidades que merecem atenção.
E existe um benefício que considero especialmente importante.
Se uma equipe passou a economizar horas de trabalho com inteligência artificial, pode aproveitar parte desse tempo para acompanhar vendedores, conhecer melhor os produtos e conversar com os clientes.
Uma visita técnica pode revelar um argumento comercial que nunca apareceu na publicidade. Uma conversa com um pecuarista pode explicar por que ele prefere determinado fornecedor. A análise de uma negociação perdida pode mostrar uma dificuldade que a empresa ainda não conseguiu resolver.
São informações valiosas que podem alimentar novas pesquisas, melhorar o planejamento e orientar campanhas desenvolvidas com auxílio da própria IA.
Eu começaria por examinar quanto do conhecimento técnico e comercial da empresa está sendo aproveitado pelo marketing. Pode haver oportunidades importantes que a equipe ainda não explorou, enquanto dedica boa parte de seu tempo a produzir materiais semelhantes aos dos concorrentes.
A inteligência artificial pode economizar muitas horas de trabalho. Eu aproveitaria parte desse tempo para descobrir por que os clientes escolhem aquela empresa e o que ainda falta para conquistar os que estão comprando do concorrente.